Um dos piores sentimentos que alguém pode carregar no coração é a
inveja. Não serei hipócrita em dizer que nunca invejei ninguém. Já senti
inveja dos pássaros e nem por isso desejei arrancar-lhes as asas; já
senti inveja dos peixes, mas jamais lhes secaria o mar. Como vedes,
nunca desejei mal a outrem. A inveja que me acomete é pura, inocente.
Diria que é um sentimento de surpresa misturado de prazer, uma inveja
positiva, uma admiração motivadora que seduz, arrasta e tenta reproduzir
o que de melhor a outra criatura representou.
Zuenir Ventura
conseguiu distinguir os três principais sentimentos que rondam a mente
doentia do homem: o ciúme, a cobiça e a inveja. Segundo o renomado
jornalista, ter ciúme é querer manter o que se tem; cobiçar é querer o
que não se tem; e a invejar é... não querer que o outro tenha!
A
inveja é um dos sete pecados capitais. Em latim significa "vontade de
não ver". Conta-se que a Inveja era uma deusa muito má, filha da Noite.
Era representada com a cabeça cheia de serpentes, estrábica, feia e
despeitada. Tinha em uma das mãos uma víbora que lhe sugava o seio
murcho (daí a palavra "despeito"). Os antigos mestres souberam muito bem
criar uma imagem simbólica deste sentimento nocivo que tantos prejuízos
deu à humanidade. Se Caim se propusesse a ler isso, talvez tivesse um
álibi perfeito quanto à morte do irmão e não passaria para história como
o primeiro despeitado. Bastaria alegar pelo outro uma admiração e não
terminaria estigmatizado como fratricida.
FEIA E DESPEITADA
A representação da Inveja numa gravura do
século XVI
Até
hoje sofro por ser alvo dos invejosos. Desde criança fui vítima desse
mal e - acredite - nunca fiz nada para cultivar o despeito dos meus
colegas. Lembro que foi nessa época que comecei a me queixar em casa do
bullying que sofria: tirando o período das provas, eu era malquisto o
tempo todo. Ninguém enxergava em mim a neutralidade, a disposição
natural para a amizade. Como o meu pai era umbandista, passei a receber
dos Caboclos e dos Pretos Velhos a freqüente recomendação de banhos de
ervas, sal grosso e defumações. Na vida adulta não mudou muita coisa: a
inveja passou a ser minha perseguidora e dela fujo até hoje. Não à toa
minha mãe proibia que eu aceitasse alimentos de qualquer pessoa. Incutiu
em mim essa desconfiança. Talvez influenciada pelo Livro dos
Provérbios, capítulo 23, 6: "Não comas o pão daquele que tem
mau-olhado". Se a Bíblia recomendava esse remédio, dizia, por quê não se
prevenir?
Quem me conhece sabe que sou um tolo, desprovido de
maldades. Tenho horror de gente dissimulada, que tem como o hábito o
culto à Filha da Noite. Aqueles que não têm competência são bem capazes
de prestar-lhe sacrifícios. Fingem amizade sincera, te elogiam,
compartilham de suas festas, comem, bebem, comemoram sua vitória, mas lá
no fundo, torcem o nariz, praguejam a sua sorte, subtraem dez por cento
de sua felicidade. Ainda bem que possuímos a intuição e podemos
identificá-los. De amigos nocivos quero distância! Infelizmente até nos
cultos existe esse mal sistêmico. Se optei pela reclusão temporária dos
templos foi para me resguardar: sem ter a quem caçar, os despeitados
ficam às cegas; mesmo tendo os olhos grandes, enormes, não te enxergam -
mas mesmo assim falam à distância.
OLHO TURCO
Os maioria dos símbolos universais
contra o mau-olhado têm o olho como amuleto
No
mundo islâmico o mau-olhado é uma expressão muito comum. Ela simboliza
uma tomada de poder sobre alguém ou alguma coisa, por inveja com a
intenção maldosa. Os árabes chamam de ma'ian. Dizem, que quando um
ma'ian olha com desejo para alguma coisa... causa um dano irreparável! A
questão era saber se o olhar teria o poder de descarregar alguma
substância invisível, como um veneno de uma víbora. Não é a toa que
surgiram inúmeras maneiras de neutralizar esse mal. Em todas as culturas
existem antídotos. Os supostos efeitos do mau-olhado podem assumir
miríades de formas, desde problemas financeiros, desilusões
sentimentais, enxaquecas, acidentes, fadiga e mesmo a morte.
Apesar
de constantemente atribuir aos olhos a maldade humana, a maior
ferramenta utilizada pelos invejosos é a boca. À reboque vem a palavra,
pois é dela que partem as palavras mal ditas. Para neutralizar esse
desconforto espiritual, surgiram entre os magos os filtros e os
amuletos.

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